Sobre
Meu trabalho investiga a tensão entre permanência e transformação através da madeira. Cada peça nasce de fragmentos descartados — galhos de podas urbanas e rurais que carregam registros silenciosos de tempo: veios que mapeiam anos de crescimento, fissuras que documentam estações, texturas que revelam densidades únicas.
Não imponho formas. Leio as que já existem.
O processo é lento e fundamentalmente observacional. Descasco a casca bruta, exponho a matéria. Estudo como cada madeira responde à secagem, onde quer quebrar, onde resiste. Esculpo seguindo essa lógica interna — amplificando singularidades, nunca regularizando. O polimento revela profundidade cromática. Banhos metálicos dialogam sem dominar.
Mas há algo que não posso controlar, e que recuso negar: a madeira continua viva.
Mesmo após meses de trabalho, mesmo com três camadas de proteção, a madeira responde ao calor, ao frio, à umidade. Ela trabalha. Expande, contrai, às vezes racha ligeiramente. Isso não é falha no processo — é a verdade material. É a madeira lembrando que não deixou de ser viva apenas porque se tornou joia.
Quando você recebe uma peça STÀ, você não recebe um objeto fixo. Recebe uma matéria que continua em diálogo com o tempo. A joia envelhecerá. Mudará sutilmente. Carregará marcas do seu uso, das estações que atravessar, do ar que respirar junto de você.
Isso é incômodo? Sim. Contradiz a promessa de permanência? De certa forma. Mas é também a coisa mais honesta que posso oferecer: um objeto que, como você, continua transformando-se. Que não finge ser inerte apenas para parecer eterno.
STÀ, do italiano stare (estar), ancora-se na ideia de presença radical. E presença radical significa estar inteiro no processo de viver — inclusive na imperfeição, na transformação contínua, na recusa de fingir estabilidade.
As peças não são ornamentos passivos — são arquivos materiais de ciclos naturais, objetos que exigem tempo de leitura. E que continuarão se revelando conforme vivem contigo.
Vestir uma joia STÀ é reconhecer que você e a madeira compartilham algo fundamental: a impossibilidade de permanecer a mesma, a beleza de envelhecer, a verdade de que transformação não é derrota — é vida.
Trajetória
Formada em arquitetura, passei uma década projetando na escala urbana. Minha linguagem autoral emergiu apenas quando deixei a cidade — no campo, deparei-me com o que chamo de 'eloquência do descarte'. Galhos podados concentravam informação extraordinária: anéis de crescimento como calendários biológicos, veios irregulares como mapas de competição por luz, colorações inesperadas sob cascas rugosas. Percebi que não se tratava de matéria morta, mas de arquivos vivos aguardando leitura.
Metodologia
Meu processo é arqueológico. Recolho madeiras de origens diversas — podas urbanas, manejo rural, achados — e cada fragmento passa por observação prolongada. Estudo padrões de veio (revelam direção de crescimento), variações cromáticas (indicam densidade), peculiaridades morfológicas (bifurcações, nós, acidentes).
O descascamento é revelação: remove-se o opaco, aparece textura sedosa, geometria insuspeita. A secagem — lenta, monitorada — é quando a madeira "fala": deforma-se, abre fissuras, estabiliza-se. Esculpo respeitando essa lógica interna. Não busco simetrias ou regularidades. Me interessam os acidentes, as marcas do tempo — o que torna cada peça irrepetível.
O polimento é gradual, quase meditativo. Busco brilho que amplifique a luz natural da fibra sem artificializar. Os banhos metálicos — ouro, prata oxidada, cobre — são aplicados como desenho: ressaltam contornos, criam tensões visuais entre orgânico e manufaturado.
Filosofia
STÀ ancora-se em dois eixos: presença e ciclicidade. Presença porque cada peça exige desaceleração perceptiva. Não são joias para consumo rápido de imagem — revelam-se em camadas, pedem proximidade, tato. Ciclicidade porque trabalho exclusivamente com matéria que já completou um ciclo biológico. Há algo de alquímico em transformar fim em começo, esquecimento em permanência.